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segunda-feira, 2 de julho de 2012

Primitivo


Ele não tinha muito, ferido, esperava a morte. Vivia isolado em um acampamento improvisado, feito com galhos, pedras e folhas. Foi expulso de sua família por um acidente, não tinha visto a raiz da árvore e tropeçou, chamando a atenção dos animais. Na fuga, dois primos seus foram pegos e um tio morreu também tentando salvá-los. No dia seguinte após o fiasco, foi expulso do grupo a paus e ossos que lhe eram atirados. Um dos pedaços lhe atingiu a boca, danificando alguns de seus dentes e causando cortes internos, e outro o atingiu cortando o braço. Ele correu para fugir dos projéteis, adentrando uma floresta ainda desconhecida para ele.

Tinha doze anos, metade da vida dos da sua espécie, era um caçador iniciante em seu grupo, no entanto não mostrava muito talento, o que, além de causar sua expulsão, sempre lhe foi motivo de zombarias entre os outros caçadores mais privilegiados. Nunca tinha se aventurado fora do acampamento sozinho. Fora alertado quando criança para não fazê-lo, lhe contaram histórias sobre os ferozes animais que viviam nas matas. Predadores hábeis, que não discriminavam quando em busca de comida. Correu desesperadamente para escapar da vingança de seus familiares, correu enquanto suas pernas lhe permitiram, até perceber que partia a grande esfera iluminada de fogo, que lhe trazia a luz e boa fortuna.

Decidiu, então, fazer um acampamento improvisado, com as técnicas que lhe ensinaram ao longo da juventude. Reuniu algumas folhas e galhos de diferentes tamanhos. Com isso, não estava protegido, mas não seria facilmente visto, pelos predadores que buscavam justamente um abandonado igual a ele.

Não sabia o que fazer, milhares de coisas se passavam por sua mente confusa. Talvez o estivessem procurando ainda, talvez já o estivessem estudando, predadores ou outro grupo rival de sua espécie. Batalhas entre grupos de sua espécie eram muito comuns, seja por território, comida ou parceiras fêmeas, ele sozinho seria um alvo fácil, então quase não dormiu. Ficava ouvindo os passos, os sons que algumas presas, com menos sorte que ele, emitiam quando eram pegas, as árvores, o vento. Nem todos os sons existiam, mas o medo lhe confundia. Fechava os olhos por alguns minutos, por exaustão, mas logo acordava em desespero, crendo ter sido encontrado por alguma coisa. Horas e horas de angústia e insônia, mas ele viu o sol nascer novamente, afastando o frio e a escuridão da noite, mas não o perigo das matas.

Tinha fome. Não comia faz quase um dia, na verdade por sua culpa. Se ele não tivesse atrapalhado a caça de seus companheiros, talvez não tivesse sido expulso e agora tivesse uma refeição. Lembrou-se por um momento de sua família e se entristeceu. Não sabia se um dia voltaria a vê-los, e, se os visse, seria recebido, provavelmente não. Procurou esquecer, levantou-se, enxugou os olhos, pegou sua lança de madeira e pedra, que levou consigo durante toda a fuga, e procurou uma presa a sua altura, tomando cuidado para não atrair seus superiores.

Seu coração pulsava com força e velocidade, enquanto caminhava vagarosamente. Seus olhos não paravam um instante, até que viu um lago. Aproximou-se cuidadosamente, como um cão, buscando por ruídos e cheiros que lhe parecessem perigosos. O lugar parecia estar vazio, logo, matou sua sede e limpou a ferida em seu braço que, embora o medo lhe ajudasse a ignorar, o incomodava muito, assim como sua boca, que tinha vários cortes, dentes perdidos e outros apenas danificados. Reidratado, percebeu não muito distante, um pequeno roedor. Não sabia dizer que espécie era, mas tinha um tamanho inofensivo e parecia frágil, não seria um grande lutador. Então, buscou uma posição vantajosa silenciosamente, e quando o animal parecia distraído, lhe atirou certeiramente a lança, matando o bicho e lhe garantindo comida para o dia.

Correu em direção a carcaça e, sem muitos escrúpulos, com a ponta da lança, rasgou sua pele e comeu a carne e entranhas da presa. Pegando um pedaço de músculo, sentiu uma dor terrível ao morder, fazendo com que urrasse e gemesse, pulando, mas não poderia fazer nada para resolver esse problema. Continuou comendo e evitando mastigar com determinados dentes, para não piorar a situação.

Pensava em morar ali. Tinha água, pequenos animais apareciam vez ou outra e, na falta deles, tinha folhas e frutos que o manteriam nutrido. Começou a reunir materiais para preparar algumas armas e utensílios, até que uma pedra lhe atingiu com força a cabeça. Sangrava e sentia-se desorientado, mas o medo lhe fez ignorar a dor, agarrar sua lança e procurar a origem da pedra. Viu outra voando em sua direção, mas dessa vez teve tempo de desviar. Quando desviou, ouviu um urro não muito distante. Seja quem for que lhe atirou a pedra, era de sua espécie. Logo viu que estava cercado. Era um grupo rival, de seis caçadores. Tinham sido, aparentemente, bem sucedidos na caça e agora queriam um lugar com água para reunir o grupo, com isso ele viu que teria que partir ou morrer. Até que um dos caçadores lhe lançou uma pedra enquanto gritava que lhe atingiu o joelho.

A dor era muito forte. Ele se arrastava no chão, enquanto o outro grupo corria em direção ao lago para matar a sede, o ignorando completamente. Pela terra e pela grama ele aos poucos se afasta. Também não podia usar os dois braços para se arrastar, por causa do corte do outro dia. Pensava que iria morrer, mas os caçadores não pareciam se importar o bastante para matá-lo.

No meio da tarde, ele gemia de dor e sede, mas não conseguia se levantar. Irritado, dois membros do outro grupo o levantaram e o carregaram para outro lugar não muito distante, para que, assim, deixasse de incomodar.

O dia chegava ao fim, alguns insetos já mordiam seu corpo, que com muito esforço e dor, ele conseguiu recostar a uma árvore próxima. Ao sentir as mordidas, ele tentava agarrar o inseto e comê-lo. Isso serviu de jantar, embora não tenha satisfeito seu apetite de jovem.

Não conseguia dormir. A dor de seus ossos quebrados, cortes e infecções desconhecidas era forte demais. Alucinava, devido a febre e a pedrada na cabeça, via seres e sombras. Uns não eram reais, outros eram pequenos animais que eram atraídos pelo cheiro de seu sangue e se alimentavam dele, com pequenas mordidas, lhe arrancando dedos e pequenos pedaços.

Ele chorava e pedia aos deuses da natureza que lhe salvassem. Pedia sem sucesso que a agonia, que ele nem ao menos compreendia, acabasse. Tremia, no solo frio e sujo, daquela terra primitiva.

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