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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Pensamentos de um antiquado ou Moça da Lavanderia


“Preciso comprar uma máquina de lavar. É caro, mas ainda mais alto é o preço da lavanderia. Se bem que eu não levo jeito nenhum para essas tarefas domésticas, acabaria por destruir todas as minhas roupas, que já não estão em boa situação, em poucas semanas. Além disso, lá vejo F., a filha dos donos da lavanderia. Que garota espetacular. Na verdade estou sendo superficial, não sei nada sobre ela, além de sua beleza. Não acho que um dia conversamos por mais de um minuto, tentei fazê-la rir algumas vezes com algum sucesso, contudo não fluiu o assunto. Talvez devesse convidá-la para sair um dia, ver um filme talvez. Não. Quem, hoje em dia, faz esse tipo de convite? Talvez eu devesse seguir o conselho do pessoal do escritório e simplesmente ir a uma dessas baladas com eles. Provavelmente não conhecerei ninguém especial, mas é verdade que faz tempo desde minha última companhia feminina. Tanto tempo que comecei a assistir filmes mudos. Mas eu sei que não vou conhecer ninguém interessante lá. Gostosas aos montes, mas interessantes - nenhuma. O que importa? Até onde eu sei, nada indica que essa F. seja interessante mesmo. É melhor eu esquecer, é necessário ter dinheiro para esses lugares. Uma cerveja, nessas baladas, custa 14 reais, e nem é cerveja boa, é sempre dessas baratas que se encontra por 99 centavos em qualquer mercado. E um carro. O famigerado carro. Não tenho nem um, nem outro. Além do mais, como faria o convite?
- Bom dia, como vai? Então, estava pensando, você gostaria de ir ao cinema comigo um dia desses ou qualquer outra coisa? Espere antes de responder, eu sei que eu não sou grande coisa, quanto a aparência, não me exercito ou sequer faço a barba com frequência, mas eu sou companheiro. Não gosto de futebol nem nada disso, estou a disposição quando necessário. Gosto de conversar e, até onde sei, sou um bom ouvinte. Eu sei que você é linda e deve estar cansada de babacas, como eu, que não conseguem diferenciar um bom serviço, de interesse sexual, e por isso eu te peço perdão. Mas pense, alguém tem que ter iniciativa, do contrário nossa espécie não teria se tornado o que é hoje. Eu sei que sou pobre, não tenho como te dar o que você quer, ou um carro para nos levar ao cinema ao qual eu te convido, mas eu estou interessado o bastante para vir aqui e fazer esse papel de palhaço para o seu entretenimento, que tal?

Nossa, já posso ouvir seu - "nem fodendo." - e nem mesmo cheguei na lavanderia. Sei que isso não é nada, e eu tenho que, pelo menos tentar, mas e depois? Não conheço nenhuma outra lavanderia, vou ter que voltar aqui toda a semana e encarar seu olhar de desprezo. Eu quero comprar uma lava-roupas, mas não dá. Ou pior, e se ela aceitar, mas não der certo? Aí que eu perderei a lavanderia de vez! Quer saber? Não importa, haverão outras!"

- Bom dia, como vai?
- Bem, e você? - ela responde.
- Bem. Aqui estão aos roupas. - eu digo, acomodando um saco plástico no balcão.
- Por quilo, como sempre?
- Isso mesmo.
Ela leva o saco a balança e, após pesar, diz:
- São 20 reais, vai pagar agora ou na volta?
- Quanto?
- 20 reais.
- Na volta.
- Ok, fica pra essa quinta, tudo bem?
- Sem problema, obrigado.
- De nada, tchau.
- Tchau.

E sigo de volta pra casa, como sempre. 

Um comentário:

  1. hahah,velho que porra me vi nesse conto,muito massa

    valeu abraços

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