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segunda-feira, 9 de julho de 2012

A passividade do brasileiro

Somos uma terra de gente orgulhosa e supostamente guerreira. Falamos o que bem entendemos de nosso país e seus defeitos, mas ai do estrangeiro que se arriscar a fazer o mesmo. Somos como aquela esposa insatisfeita que insulta o marido em todo e qualquer encontro que tem com suas amigas. Que reclama de seus hábitos, de seus gostos, de sua fala, de seus atos. Mas pula no pescoço daquela que disser: - “Sabe, não tinha percebido, mas você tem razão.”

Acontece que essa revolta que existe contra o estrangeiro ousado, simplesmente morre quando deve ser direcionada ao verdadeiro responsável por todos os nossos problemas. O brasileiro é simplesmente o povo mais passivo da história de nossa humanidade ensanguentada. É claro que essa passividade não é admitida. É maquiada com a falsa ideia de que o nosso povo é bom e civilizado, não se rende a barbáries que "nada resolvem".

Quero conhecer outro povo que tenha sido tão oprimido quanto o brasileiro e não tenha em nenhum momento se armado e assassinado seu opressor. Anos como colônia; depois se tornou monarquia, sendo os reis os antigos colonizadores; seguido por décadas de falsa democracia; duas ditaduras, uma delas militar; e finalmente nossa situação atual, que não deixa de ser altamente opressora. Agora peço ao leitor que me indique em todo esse período, um responsável que tenha sofrido uma punição compatível aos seus crimes. Nenhum, o mais próximo foi Getúlio Vargas que cometeu suicídio, mas se não o tivesse teria passado o resto de seus dias com uma farta aposentadoria. Ou até mesmo seria senador ou deputado, depois de alguns anos. Alguém duvida?

Os militares oprimiram, mataram e “desapareceram” com pessoas que até hoje não se sabe o paradeiro. Nada aconteceu com nenhum dos criminosos. Todos mantiveram seus cargos, só abandonaram a política. O que até é uma vantagem para eles já que, as últimas grandes atuações do exército brasileiro foram durante o mini genocídio, também conhecido nos livros de história como Guerra do Paraguai, e uma participação mediana na Segunda Guerra Mundial, ambos antes da ditadura, o que me leva a crer que o golpe de estado foi motivado por tédio. Vez ou outra auxilia nas ocupações de favelas para justificar sua existência, mas isso é função da polícia. Bastaria transferir os soldados para a polícia e teríamos grande economia de verbas públicas. O suficiente para oferecer salários decentes para os policiais que, mesmo com todos os seus defeitos, realmente trabalham e ainda merecem respeito.

Nenhuma punição aos ditadores, alguns até querem transferir a culpa a certos grupos que lutaram contra o regime. Chamando-os de ladrões, sequestradores ou assassinos. Se os alvos desses ataques foram civis inocentes, então eles merecem esse título. Se foram militares, são heróis. Incriminá-los é o mesmo que prender alguém que tenha tentado matar Pinochet ou Hitler. Ou até mesmo punir os homens que conduziram a Revolução Francesa e assassinaram sua nobreza.

Falando em nobreza, vamos voltar à ao tempo dos reis e nos perguntar que fim os levou. Provavelmente os herdeiros da família real, embora não tenham tido o mesmo destino que os franceses. Devem estar esquecidos em algum apartamento de classe média, após terem perdido todas as suas riquezas. Vivendo como uma pessoa normal, que um dia foi alguém, mas hoje é um Zé da Silva, como você e eu. Assim seria em um país onde a passividade não reinasse mais do que a realeza. Nossos ex-nobres, vivem exatamente na mesma nobreza que sempre viveram, só que agora sem sua função. Quase como os nossos militares, mas sem nenhuma justificativa. Faz-me pensar que os mantemos ao alcance, caso um dia surja um arrependimento e, em surto de desespero, os devolvemos a coroa. E quem paga por esse luxo? Nós, o povo otário, que embora não seja súdito na teoria, vive como tal por gosto ou vício.

Somos viciados em submissão. Mesmo hoje que temos uma verdadeira democracia, mantemos por gosto nosso regime corrupto. Contamos umas piadas sem graça aqui e ali, que tem um tom meio ácido, mas na realidade são tão afiadas como uma colher de madeira. Piadas que a ninguém atinge, mas mesmo assim, ora ou outra tentam censurar. Nada acontece, se alguém for pego roubando hoje, terá o direito de roubar amanhã. Ninguém irá puni-lo, ninguém saíra às ruas em sinal de protesto ou até mesmo invadirá armado o congresso trazendo o desfecho merecido à vida da maior parte daqueles homens. Gostamos da nossa situação. Essa é a verdadeira natureza do brasileiro, um povo amistoso, receptivo, festeiro e otário.

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