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terça-feira, 17 de julho de 2012

Neste Domingo Animei um Lanche


Existem várias coisas nesse mundo que eu não entendo. Com isso não estou falando dos mistérios do universo, origem e sentido da vida ou qualquer coisa filosófica, mas sim os mais simples hábitos humanos. Noutro dia estava saindo de casa para ir ao mercado e cumprir com certos afazeres domésticos, quando uma moça vestida de sanduíche me chama a atenção pulando e dançando, enquanto passava em frente ao restaurante que a empregava. Não sei dizer qual era a sua idade ou aparência, pois a fantasia a cobria totalmente, tanto que só identifiquei que se tratava de uma mulher por causa de sua voz. Estava levemente desligado por se tratar de um Domingo (para mim Domingo é sinônimo de tédio, sonolência e, de vez em quando, ressaca), então ao ver aquela figura saltitante em frente aquela lanchonete fast food que fica colada ao prédio onde moro, não resisti ao impulso e perguntei: -“Por que fizeram isso com você?” e, sem esperar por muito tempo uma resposta, simplesmente segui meu caminho. Quando eu estava uns passos mais afrente a ouvi gritar: -“Você deixou um lanche muito triste!”.

Quero que fique bem claro que, em nenhum momento foi minha intensão ofender ou humilhar aquela moça, pelo contrário. Com meu questionamento, quis expressar simpatia por ela e toda uma classe esquecida de trabalhadores honestos que são obrigados diariamente a se vestir com as mais esdrúxulas roupas com o simples intuito de recepcionar e atrair consumidores. Não é só ela, mas também palhaços mal maquiados em portas de loja em promoção, outros em lojas de itens infantis fantasiados de personagens da Turma da Mônica (uma das fantasias mais utilizadas, independentemente do contexto, chega a ser um abuso aos direitos de imagem), homens estátua e até, mais recentemente e de maneira sazonal, os caixas do supermercado o qual estava me dirigindo, que se vestiam em homenagem as festas juninas (com roupa xadrez, tranças, chapéu de palha e toda a aparelhagem). Vendo todas essas fantasias, só me vinha em mente uma pergunta – para quê?

Para que um dono ou gerente de um determinado estabelecimento iria exigir tal vestimenta de seus funcionários? Atrair clientes não é, pois eu não conheço um ser humano adulto inteligente que escolha as lojas que frequenta com base na qualidade do palhaço dançante que o atraiu. Crianças? Não sei as outras, mas lembro que durante minha infância tive medo deles, talvez esse fato até explique essa minha crítica hoje. Não consigo pensar em um grupo de pessoas que prefira lojas com atendentes fantasiados, acho até que o lógico seria preferir as que não se utilizam dessa estratégia já que, comprar já é uma tarefa dolorosa, comprar enquanto uma pessoa fantasiada pula ao seu redor é absurdo!

A única conclusão lógica é que o patrão sente prazer em humilhar seu funcionário, fazendo-o se vestir de maneira ridícula enquanto este exerce sua função. Uma expressão quase surreal de abuso de poder, não só de vestimenta, mas de identidade. Sim! Pois lhes digo que a fantasia é mais que somente uma vestimenta para os que fazem parte dessa linha de trabalho. Aquela pobre moça da lanchonete não era mais a Maria, a Vera, a Ana ou qualquer que fosse seu nome, ela era o Lanche, em suas próprias palavras. Assim como o João se torna o Palhaço Marmelada quando veste sua peruca e nariz vermelho, a Fernanda se torna a Magali e, nos shoppings em Dezembro, o seu Antunes é o Papai Noel.

Sou contra esse tipo de atitude. Não trabalho nesse meio, mas não é como se a minha função fosse superior ou eu tivesse um papel mais relevante na sociedade. Também faço parte da massa de operários dessa grande indústria chamada sociedade e sei que meu trabalho seria ainda pior se me obrigassem a me vestir de Cachorro-Quente. Por isso ao voltar do mercado e ver que ela ainda estava lá, talvez até mais saltitante que antes, fui até ela e pedi desculpas pelo meu comentário e me expliquei como estou fazendo agora por meio deste texto, recebendo de imediato a resposta: -“Agora você fez um lanche muito feliz!”.

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