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quinta-feira, 26 de julho de 2012

Microconto II - Tragédia à luz da lua


- Que noite estranha foi essa. Que horas são?

- Uma da manhã.

- Quem é você?

- Não se lembra? – ela era uma bela morena, estava escuro demais para reconhecer seu rosto, mas me parecia familiar. Seus olhos eram tão lindos e profundos que podia ver seu azul mesmo no quarto sem luz. – Então você acaba de se esquecer da melhor noite de sua vida.

- Eu realmente me sinto muito bem.

- Só isso?! Depois do que fizemos ontem era para você estar completamente entorpecido.

- Qual o seu nome mesmo?

- Pra que formalidades agora. Não nos veremos mais, foi nossa primeira e última noite.

- Mas espere! Você disse que era uma da manhã, mas eu tenho a impressão que dormi por uma noite.

- E dormiu. Dormiu por uma noite e um dia. É uma da manhã, do dia seguinte.

- Mas o que foi que aconteceu?

- Bom, além do sexo, nós bebemos bastante. Talvez tenha sido isso.

- E por que você ainda se lembra, se bebeu tanto quanto eu?

- Ora, eu sou diferente.

Não entendia nada do que estava acontecendo, então me levantei da cama e abri a janela. Olhei bem a rua, os prédios, os carros e não reconhecia nada.

- Onde estou?

- No seu apartamento.

- Esse não é meu apartamento.

- Olhe bem.

Olhei novamente e reconheci que aquela era a rua onde morava com meus pais em Santos. Reconheci o posto de gasolina, a casa logo em frente, a igreja ao lado, a loja de baterias e acessórios para carro da esquina, o boteco. Lembrava-me de todos os detalhes da rua. Afastei-me da janela e passei meus olhos pelo quarto, agora levemente iluminado pela lua e as luzes da rua. Realmente era o quarto em que meus pais costumavam dormir quando ainda moravam lá. Tudo estava exatamente igual, do papel de parede a mobília. Achava que tudo havia sido retirado após a mudança, mas pelo jeito estava enganado. Olhei para a mulher misteriosa, tentando reconhece-la, mas não tive sucesso. Ela não me era estranha, mas não conseguia me lembrar. Só sabia que me sentia bem perto dela, que realmente queria estar ali naquela situação. Até fiquei triste em saber que não a veria de novo, mesmo sem saber seu nome ou de onde nos conhecíamos ou se nos conhecíamos.

- Agora reconheço – disse impressionado – mas, o que estamos fazendo aqui? Eu me mudei faz mais de três anos.

- Eu não sei.

- Mas você sabia onde estávamos e que um dia eu já morei aqui, não é?

- Sim.

- Como?

- Você pergunta demais. Deveria somente aproveitar o momento um pouco mais, enquanto ainda dura.

Parei para observar a rua novamente e à distância vi duas crianças brincando em uma varanda. Elas pulavam e se empurravam, até que uma delas, descuidadamente, empurrou a outra com mais força, a lançando para fora da varanda, derrubando-a do prédio. Fiquei nervoso ao ver a situação.

- Aquela criança caiu da varanda! – gritei, sem saber o que fazer e me sentindo perdido, enquanto a mulher que me acompanhava ria.

Então aquela que empurrou, pulou em desespero para tentar salvar seu amigo. Fiquei ainda mais angustiado com a situação, pois considerando a altura do prédio em que estava aquela varanda, era lógico que elas tinham morrido pela queda.

Comecei a ouvir gritos de desespero pela rua, tantos que não conseguia identificar a sua origem. Eram berros de todas as espécies: - “Meu filho!” – “Aquelas crianças pularam!” – “Alguém vai ver o que houve!” – “Socorro!” – “Meus filhos morreram!”. Todos extremamente altos e desesperados. Gritos que se esperaria ouvir vindos do inferno.

Essas vozes prosseguiram por mais alguns minutos, até que um homem disse: - “Vou salvá-los!” – e pulou de sua janela. Logo foi acompanhado por toda a vizinhança que aos poucos pulavam de suas janelas em direção ao concreto impassível. Alguns, que moravam em prédios mais altos, morriam imediatamente esmagados pelo seu próprio peso, enquanto outros quebravam alguns ossos, mas prosseguiam a se arrastar em direção ao local onde deveriam estar os corpos ensanguentados daquelas pobres crianças.

- Você não vai fazer nada? – perguntou-me minha acompanhante misteriosa.

- Para quê? – respondi, enquanto ela encostava-se a mim e eu punha meu braço ao redor de seu corpo – Estarão mortos de qualquer forma.

Os corpos continuavam a se atirar e gritar e se espalhar em sangue pelas ruas, enquanto nós ríamos e nos beijávamos à luz da lua avermelhada.

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