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sexta-feira, 4 de maio de 2012

Arrogância


Não sei quantas vezes em minha vida ouvi falar que o ateísmo é arrogância, antes mesmo de me declarar ateu, principalmente por ter vindo de família religiosa. No entanto, por mais que não me agrade ficar discutindo provas e os males da religião para o mundo, tenho que discordar dessa afirmação.

Quero deixar bem claro que não posso provar que deus não existe, não acredito nele e nem quero que ele exista, mas não tenho provas, assim como não tenho provas da não existência de Odin, Rá, Osíris, Dionísio, Júpiter e o Papai-Noel. No entanto tenho motivos para não acreditar. É claro que o fato da bíblia, fonte inicial para a discussão do deus cristão, não possuir um fato comprovado coopera para a descrença, já que se o primeiro e único “escrito oficial” declarando a existência de uma determinada entidade é falso, logo posso dizer que a entidade em questão também o é. Mas existem desculpas, que as histórias são metafóricas, mitos, uma infinidade de argumentos que não provam a existência como também impedem a prova da inexistência. Uma discussão infinita, nascida na Grécia, quando os primeiros ateus negaram Zeus e companhia que só acaba quando o deus muda. E podemos dizer que, lentamente o deus atual está mudando. Não se pensa mais com tanta certeza no deus humano, mas na energia criadora metafísica que tornou possível a criação, um argumento mais deísta do que cristão. O que me leva a crer que o deísmo será a próxima religião, quando o cristianismo em um futuro distante, inevitavelmente ser esquecido.

O que não me convence na religião é a ideia de que o universo foi feito para a vida, para existência. A religião nega o fator da aleatoriedade, afirmando que tudo acontece por um motivo e com o bem do ser humano em mente. Isso para mim é a definição de arrogância, a certeza de que o mundo foi feito para si, e os fatores conspiram para o seu bem, mesmo quando de imediato o que ocorre faz mal, no futuro a consequência será benéfica, porque é isso que o criador, supostamente, quer. Esse é o único ponto em que todas as religiões, desde os primórdios, estão de acordo, profetas, mandamentos, céu, inferno, transcendência, tudo muda de religião para religião, mas a teoria do criador todo poderoso, que manipula as causas e efeitos da existência para o bem do indivíduo é em geral aceita.

Isso porque ela traz consigo conforto, o fim de todas as angústias e dúvidas geradas pelo existencialismo. Se tudo acontece por um motivo, não há porque se preocupar. No entanto crer nisso, torna o livre arbítrio, teoria também geralmente aceita na religião, com limites e exceções, uma piada, uma grande mentira. Afinal se tudo já está pré-determinado, pouco importa minhas ações, deus vai muda-las para que se adapte a sua vontade. O que me leva a crer que isso é apenas efeito do medo, uma infantilização como já mencionado em outros textos. O ser humano teme ser jogado ao mundo sem um guia, teme ser culpado de suas próprias ações e pior tomar uma decisão errada sabendo que só se vive uma vez.

Concordo que o nada, que o fim é angustiante e nem todos tem obrigação de viver nele, contudo dizer que aceitar a possibilidade da ausência de significado da existência é arrogância é absurdo. Não quero influenciar ninguém a abandonar sua fé, apenas deixar claro que fé e crença religiosa não é humildade ou racional, e sim uma muleta compreensível que o ser humano utiliza para passar pela vida sem ter que pensar na essência e significado da existência.

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